E-commerce

Guia de Fiscalização da ASAE para Lojas Online

Como garantir que o seu e-commerce cumpre todas as regras da ASAE sobre preços, promoções e devoluções para evitar coimas.

Por Tejo Creative · Publicado em 2026-05-24

Atualizado em 2026-05-24

As regras ASAE lojas online exigem que cada campanha com desconto identifique a modalidade legal (saldos, promoção ou liquidação), mostre o preço mais baixo dos últimos 30 dias nesse canal, publique política de devolução de 14 dias e disponibilize o Livro de Reclamações Eletrónico antes do checkout. A Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) fiscaliza estas obrigações no comércio à distância com o mesmo rigor que na loja física — e, em maio de 2026, as inspeções cruzam sites, anúncios Meta/Google e fichas de produto.

Resposta rápida

O que a ASAE exige numa loja online em Portugal?

Transparência de preços (incluindo IVA e portes), práticas comerciais leais, informação pré-contratual completa, direito de livre resolução em 14 dias com reembolso atempado, Livro de Reclamações Eletrónico acessível e, quando há redução de preço, cumprimento do DL n.º 70/2007: modalidade explícita, preço mais baixo dos 30 dias anteriores no mesmo canal e comunicação prévia à ASAE para saldos e liquidações.

Fonte: ASAE — FAQ Saldos, Promoções e Liquidações; DL n.º 57/2008; DL n.º 24/2014

Infográfico profissional sobre fiscalização da ASAE para lojas online em Portugal, com pilares de preços, promoções DL 70/2007, devoluções em 14 dias, livro de reclamações e informação pré-contratual para PME.
Os cinco pilares que a ASAE verifica com mais frequência em inspeções a e-commerce de PME.

Sumário executivo

Gerir uma loja em Shopify, WooCommerce ou PrestaShop implica mais do que campanhas de marketing para e-commerce: o enquadramento legal português trata o site como estabelecimento comercial para reduções de preço e como contrato à distância para devoluções. A ASAE (Autoridade de Segurança Alimentar e Económica) não “aprova” lojas — fiscaliza, instaura contraordenações e, em casos graves, remete processos-crime.

Ponto principal: para uma PME com faturação online até cerca de 500 mil euros/ano, o retorno mais alto costuma ser documentar processos (tabela de preços por canal, calendário de campanhas, modelo de devolução) antes de escalar anúncios pagos. Onde a equipa é só o gerente e um estagiário de marketing, eu priorizaria conformidade de preços e devoluções antes de otimizar criativos — a coima de uma Black Friday mal rotulada pode custar mais do que um trimestre de Meta Ads mal gasto.

Aviso: este guia é informativo e não substitui aconselhamento jurídico. Os valores de coima dependem do regime contraordenacional aplicável a cada infração; confirme sempre com advogado ou consultor especializado.


1. O que a ASAE fiscaliza no e-commerce (e o que não fiscaliza)

A ASAE tutela, entre outros domínios, práticas comerciais e segurança alimentar. Num site que vende cosmética ou moda, o foco típico de inspeção é:

ÁreaBase legal principalO que o inspetor procura
Preços e publicidadeDL n.º 57/2008Preço total, IVA, portes; ausência de informação enganosa
Reduções de preçoDL n.º 70/2007Modalidade, 30 dias, comunicação eSaldo/liquidação
Contratos à distânciaDL n.º 24/2014 + Lei n.º 47/2014Informação pré-contratual, livre resolução
ReclamaçõesRegime do Livro de ReclamaçõesAcesso ao livro eletrónico
Produtos específicosRegulamentos sectoriaisAlimentar, metrologia, segurança de produto

A Autoridade Tributária (AT) continua responsável pelo IVA declarado e pela faturação certificada — tema que cruzamos no guia de integração de faturação com WooCommerce e Shopify. A ASAE e a AT podem atuar em paralelo: uma campanha com “-70%” falso preocupa a ASAE; uma fatura sem ATCUD preocupa a AT.

Em 22 de maio de 2026, a página de FAQ da ASAE sobre saldos confirma expressamente que o DL n.º 70/2007 aplica-se a lojas online (pergunta 3 da secção “Saldos, Promoções e liquidações”).1


2. Preços transparentes: IVA, portes e “preço desde”

O DL n.º 57/2008 proíbe práticas que induzam o consumidor em erro sobre o preço total a pagar. Na prática, cada ficha e cada anúncio devem permitir calcular o valor final antes do pagamento.

ElementoObrigação prática no siteErro frequente
IVAPreço de venda com imposto incluído (B2C)Mostrar preço sem IVA “para parecer mais barato”
PortesIndicar custo ou regra (“grátis acima de 50 euros”) antes do checkoutSurpresa só na última etapa
ComparaçõesNão inventar “PVP recomendado” sem base realPercentagem calculada sobre PVPR de marca
Stock promocionalNão anunciar preço baixo sem stock razoávelCampanha viral sem unidades

Exemplo — Maria, 38 anos, Coimbra: gere a BioRitual.pt, loja WooCommerce de cosmética natural com 120 SKUs e 18 mil euros/mês online. Em março de 2026 lançou “Pack Detox -40%” com referência ao preço de tabela da marca (49 euros) em vez do preço mais baixo praticado na loja nos 30 dias anteriores (62 euros). Um cliente reclamou à ASAE via Livro de Reclamações; a inspeção pediu capturas de ecrã e histórico de preços no backoffice. Lição: exporte semanalmente o CSV de preços por SKU e canal — custa 15 minutos e evita discussões sobre “qual era o preço real”.

Onde estou menos seguro — em marketplaces (Amazon.pt, Worten Marketplace) — a responsabilidade pode ser partilhada com o operador da plataforma; mesmo assim, a marca que define o preço promocional costuma ser chamada a explicar a referência de 30 dias no seu canal próprio.


3. Saldos, promoções e liquidações online (DL n.º 70/2007)

Portugal só reconhece três modalidades de venda com redução de preço. Qualquer banner genérico (“mega oportunidades”, “super preço”) sem dizer se é saldo, promoção ou liquidação é irregular.1

ModalidadeComunicação à ASAE (ePortugal)Antecedência mínimaLimite de tempo
SaldosObrigatória5 dias úteisMáx. 124 dias/ano por estabelecimento/canal
LiquidaçãoObrigatória15 dias úteisMáx. 90 dias (motivo excecional de encerramento, etc.)
PromoçãoNão exigidaDatas início/fim obrigatórias na comunicação ao consumidor

Desde 1 de julho de 2020, só conta comunicação feita em ePortugal — email ou formulário antigo não vale.2

Preço mais baixo dos 30 dias (regra “Omnibus” em Portugal)

O preço mais baixo anteriormente praticado é o menor preço de venda nos 30 dias consecutivos anteriores à redução, incluindo saldos ou promoções intermédias (alteração introduzida pelo DL n.º 109-G/2021, de 10 de dezembro).3

CanalRegra quando há loja física + online
Loja online isoladaReferência = 30 dias no URL/domínio dessa loja
Omnicanal com preços diferentesReferência por canal; anúncio geral deve deixar claro preços por ponto de venda1
Produto novo na lojaPara promoção de lançamento, pode usar preço futuro após campanha (art. 3.º, al. b) ii))

Pode usar “Black Friday” ou “Outlet” desde que o consumidor veja de forma inequívoca que se trata de saldos, promoções ou liquidações.1

Tabela comparativa — o que comunicar em cada campanha

InformaçãoSaldosPromoçãoLiquidação
Preço reduzido atualSimSimSim
Preço mais baixo 30 diasSimSimSim
Percentagem de descontoOpcional (recomendado)OpcionalOpcional
Modalidade escrita“Saldos”“Promoção”“Liquidação”
Data início e fimSimSimSim
Comunicação ePortugalSimNãoSim

4. Devoluções e livre resolução em 14 dias

No comércio eletrónico, o consumidor tem direito de livre resolução durante 14 dias após receber o bem, sem necessidade de motivo (DL n.º 24/2014).4

PrazoQuemO quê
14 diasConsumidorComunicar que desiste do contrato
14 diasConsumidorDevolver o bem (salvo exceções)
14 diasLojaReembolsar pagamentos, incluindo envio standard

Se faltar informação pré-contratual sobre o direito de desistência, o prazo pode alargar-se até 12 meses — erro grave em lojas que copiam termos de templates americanos.

Política mínima no rodapé e no checkout:

  1. Prazo e condições de devolução em português claro.
  2. Modelo de formulário de desistência (o anexo do DL n.º 24/2014 serve de base).
  3. Quem paga a devolução (consumidor, salvo defeito ou erro da loja).
  4. Prazo de reembolso após receção do produto.

Para reputação além da lei, veja também como responder a avaliações negativas — muitas queixas à ASAE começam por frustração com devolução lenta.


5. Livro de Reclamações e resolução de litígios

Toda a entidade que vende a consumidores em Portugal deve disponibilizar o Livro de Reclamações Eletrónico. No site, o link costuma ficar no rodapé (“Livro de Reclamações”) apontando para livroreclamacoes.pt.

A ASAE participa no ecossistema de Resolução Alternativa de Litígios de Consumo (RAL). Indicar entidade RAL nos termos e condições reduz escalada para tribunal — e demonstra boa-fé em inspeção.


6. Pesquisa original: conformidade nativa em três plataformas (maio de 2026)

Metodologia: em 22 de maio de 2026, revimos a documentação pública de WooCommerce (Core 9.x), Shopify Help Center (Portugal/UE) e PrestaShop 8.x, sem instalar apps pagas de compliance. Classificámos cada requisito ASAE-relevante como Nativo, Parcial (exige configuração ou tema) ou Externo (app, link manual ou página legal à medida). O objetivo não é certificar a loja — é mostrar onde a PME ainda tem trabalho manual.

Requisito ASAE / consumidorWooCommerce (core)ShopifyPrestaShop 8
Preço com IVA configurávelNativo (taxas)Nativo (markets/taxes)Nativo
Portes visíveis antes do pagamentoNativo (zonas envio)NativoNativo
Página política devoluçãoExterno (página CMS)Parcial (políticas modelo)Externo (CMS)
Link Livro ReclamaçõesExterno (rodapé manual)Externo (rodapé manual)Externo
Etiqueta modalidade + 30 dias em campanhaExternoExternoExterno
Registo histórico preço 30 diasExterno (export/ERP)Parcial (histórico limitado admin)Externo
Comunicação saldos ePortugalExterno (processo humano)ExternoExterno

Interpretação: nenhuma das três plataformas substitui o cumprimento do DL n.º 70/2007 — todas dependem de processo comercial + páginas legais. Para PME com orçamento apertado, WooCommerce e PrestaShop exigem mais trabalho de implementação; Shopify acelera políticas modelo, mas não calcula o preço de referência de 30 dias. Posição assumida: se faz mais de seis campanhas com desconto por ano, invista numa folha de cálculo ou ERP com histórico de preço por SKU e canal antes de comprar outra app de marketing.


7. Cenário completo: João e a campanha “Semana Outlet”

João, 45 anos, gere ModaNorte.pt em Shopify Plus (Braga): 2 400 encomendas/mês, 35% da receita em novembro. Em outubro de 2025 usou banner “Outlet -50%” sem palavra “saldos” nem datas. O preço de referência era o PVPR da marca (nunca vendido na loja). Em janeiro de 2026 recebeu notificação após denúncia.

Cálculo ilustrativo de risco administrativo:

ItemEstimativa
Horas internas para reconstruir histórico de preços (80 SKUs em promoção)12 h × 40 euros = 480 euros
Advogado para resposta à ASAE800–1 500 euros (mercado Braga/Porto, 2026)
Campanha pausada (7 dias, margem bruta diária 1 200 euros)~8 400 euros de vendas em risco

Mesmo sem coima final, o custo de paragem supera o de um plugin de pricing ou consultoria pontual. Após regularizar, João passou a: (1) rotular “Saldos” com datas; (2) submeter ePortugal 5 dias úteis antes; (3) guardar PDF do pedido ASAE no Drive.

Anecdotally, lojas de moda são das mais visadas em janeiro (pós-festas) porque os inspetores cruzam capturas de Instagram com preços do site — não assumo que todas as inspeções sigam este padrão fora do setor têxtil.


8. Argumento em defesa da “promoção permanente” (e por que falha)

Versão forte do argumento: “Somos uma PME; o mercado exige desconto constante. Se rotularmos tudo como promoção com datas e mostrarmos o preço de 30 dias, cumprimos o espírito da lei sem burocracia do ePortugal. A comunicação à ASAE em saldos é formalismo; o consumidor vê o preço real na página.”

Há lógica comercial: promoções não exigem comunicação prévia e permitem flexibilidade. Muitos retalhistas online vivem de campanhas rolling de 10–15%.

Rebatimento: a lei distingue objetivos (escoamento de stock vs lançamento vs encerramento). Promoção permanente a toda a gama, 365 dias, com desconto estrutural, é frequentemente requalificada como saldos disfarçados — sujeita a limite de 124 dias e comunicação. Além disso, o preço “de referência” inflacionado durante 29 dias para justificar -50% no dia 30 é prática desleal ao abrigo do DL n.º 57/2008, independentemente da etiqueta “promoção”. Veredito intermédio: use promoções frequentes, mas com datas fechadas, histórico de preço auditável e evite “desconto eterno” em todo o catálogo; para limpar stock, faça saldos declarados.


9. Checklist de conformidade antes de escalar anúncios

Working checklist — loja online vs ASAE (revisão trimestral)


    Perguntas frequentes

    A ASAE pode multar uma loja online pequena?

    Sim. As contraordenações por práticas comerciais desleais e incumprimento do regime de redução de preços estão previstas na legislação aplicável; o montante depende da gravidade, duração e benefício económico. PMEs não estão isentas por baixo volume — pelo contrário, erros em fichas replicam-se em milhares de impressões.

    Preciso de comunicar promoções de 20% à ASAE?

    Não. Apenas saldos e liquidações exigem comunicação prévia no ePortugal (5 ou 15 dias úteis). A promoção deve, contudo, indicar datas, modalidade “promoção”, preço reduzido e preço mais baixo dos 30 dias anteriores nesse canal.

    O preço no Instagram tem de igualar o do site?

    Se o anúncio direcionar à compra, a informação de preço e desconto deve ser coerente e não enganosa. Referências diferentes entre canal social e loja online são um dos motivos mais comuns de queixa quando o desconto só existe num dos lados.

    Produtos personalizados têm devolução?

    Muitos artigos feitos à medida ou personalizados estão excluídos do direito de livre resolução, desde que o consumidor tenha sido informado antes da encomenda. A informação deve constar na ficha e no checkout — copiar exceções de lojas estrangeiras costuma falhar em inspeção.

    Marketplace: quem é responsável perante a ASAE?

    Depende do papel de cada interveniente (vendedor, operador da plataforma, logística). O vendedor que define preço e condições continua obrigado às regras de informação e práticas comerciais na sua oferta. Em caso de dúvida, trate a ficha no marketplace como extensão da sua loja.

    Onde aprendo mais sobre saldos online?

    A ASAE publica FAQ detalhada em Saldos, Promoções e liquidações e o gov.pt explica o serviço de comunicação de saldos.


    Veredito

    Para a maioria das PME portuguesas que vendem online em 2026, a conformidade ASAE não é um projeto jurídico anual — é um hábito de pricing. Antes de duplicar orçamento em Google Ads ou SEO long tail para e-commerce, feche o processo de 30 dias, o ePortugal para saldos e a política de 14 dias. Escolha promoções declaradas em vez de “desconto permanente” no site inteiro. Se opera omnicanal, trate o URL da loja online como estabelecimento separado para preços de referência — é aí que os inspetores comparam capturas.

    Próximos passos

    Revise o checklist de lançamento de negócio online, alinhe cookies e listas com o guia RGPD para PMEs e, se precisar de apoio em marketing dentro da legalidade, fale connosco.


    Fontes primárias

    FonteTipoURL
    ASAE — Saldos, Promoções e liquidaçõesFAQ oficialasae.gov.pt
    ASAE — Comunicação saldos/liquidaçõesFormulário / orientaçãoasae.gov.pt
    ePortugal — Comunicar saldosServiço públicoeportugal.gov.pt
    gov.pt — Realização de saldosBalcão Empreendedorgov.pt
    DL n.º 57/2008Legislação (práticas desleais)DRE
    DL n.º 70/2007Legislação (redução preços)DRE
    DL n.º 24/2014Legislação (contratos à distância)DRE
    Livro de Reclamações EletrónicoServiço públicolivroreclamacoes.pt

    Footnotes

    1. ASAE, FAQ «Tenho uma loja online…», consultado em 22 de maio de 2026. 2 3 4

    2. ASAE, destaque «Vendas com redução de preços», julho de 2020 — comunicação exclusiva via ePortugal.

    3. DL n.º 109-G/2021, de 10 de dezembro — alteração ao conceito de preço mais baixo anteriormente praticado.

    4. DL n.º 24/2014, de 14 de fevereiro — direito de livre resolução em 14 dias.